Ozires Silva, fundador da Embraer,
ex-presidente da Petrobras e ex-ministro da Infra-Estrutura
O
aviador
Fundador e primeiro presidente da Embraer, o ex-ministro
Ozires Silva fala sobre aviação, educação
e sobre a falta de um estadista e a necessidade de um
projeto de nação para o Brasil.
Ele presidiu as duas maiores empresas brasileiras, a Embraer
(da qual foi um dos fundadores) e a Petrobrás,
além de ter sido presidente da Varig no início
desta década e, por curto período, Ministro
da Infra-Estrutura. Aos 75 anos, Ozires Silva está
longe de pensar em aposentadoria. Atualmente é
diretor-presidente da Universidade Santo Amaro, de São
Paulo, e presidente do Conselho Consultivo do World Trade
Center São Paulo. E foi justamente da sede do WTC
São Paulo que Ozires concedeu esta entrevista à
AT Revista, na qual aborda as perspectivas da indústria
no pós-11 de setembro e discorre também
sobre a necessidade de um estadista.
A Embraer é hoje uma das pouquíssimas empresas
nacionais que reconhecidamente se posiciona entre as maiores
do mundo no seu setor. Porque seu modelo não se
torna padrão na indústria?
A Embraer é, hoje, líder mundial quando
o assunto é o transporte aéreo regional,
o que mais cresce. Isso tem várias razões.
Para começar, é dona da tecnologia e dona
da marca. Mas não acho que seja questão
de modelo, acho sim que a Embraer foi produto de um projeto
muito bem elaborado e que demorou décadas para
ter o sucesso que alcançou hoje. E em que se baseia
esse projeto?
O projeto nasceu bem antes, dentro da Força Aérea
Brasileira, logo depois da Segunda Guerra Mundial, com
a instalação de uma escola, o Instituto
Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que formou
os engenheiros e técnicos que mais tarde foram
aproveitados pela Embraer. O ITA se tornou realidade em
1948. Depois dele, criou-se o Instituto de Pesquisas e
Desenvolvimento (IPD) que, aproveitando essa mão
de obra formada pelo ITA, fez nascer nosso primeiro avião,
o Bandeirante. Concluiu-se com a criação
da Embraer, mas a base toda já estava lançada.
Mas minha aposta é que esse sucesso se deve principalmente
a esse fato, o de ter tido a educação como
base. Se fala muito em educação aqui no
Brasil, mas ela estranhamente permanece apenas no gogó
dos políticos.
Educação, que é uma aposta de médio
prazo, é então o caminho?
Todos os países considerados emergentes e com taxas
de crescimento admiráveis começaram, sem
exceção, com investimentos expressivos em
educação. Cerca de 60% dos alunos matriculados
em cursos técnicos na universidade de Oxford, na
Inglaterra, agora em 2006, são chineses. E sabe
quem paga? O governo. É investimento para o futuro.
A Embraer contou com dinheiro estatal na sua instalação.
Não fica mais fácil?
Contou, sim, com dinheiro estatal. Foi criada com esse
dinheiro. Mas por uma razão: não existe
outro. Quando começamos a procurar os investimentos
necessários, tivemos contato com a iniciativa privada,
sem sucesso. Se dependêssemos do setor privado a
Embraer não existiria. O dinheiro não é
barato. O Brasil não conta com mecanismos para
financiar novos empreendedores, o que é um completo
absurdo. Qualquer país desenvolvido tem facilidades
para que as pessoas dêem partida em seus próprios
sonhos. Aqui, acontece o contrário, milhares morrem
sem decolar com seu produto. É preciso inverter
essa lógica, o Brasil precisa permitir que sua
população enriqueça monte seu negócio,
gere empregos.
A crise nas empresas aéreas, que teve a Varig como
vítima mais recente, se deve à má
administração?
Fui presidente da Varig entre 2000 e 2002 e posso falar
sobre sua situação. Boa parte da dívida
da Varig era com o governo. E o governo também
devia para a Varig. As atuais regulamentações
emperram o setor da aviação no Brasil. Perto
de 60% dos custos de operação de uma empresa
aérea vão para os cofres do governo. Só
ele pode vender combustível para os aviões
e a tributação é de 44%. Fora isso,
a burocracia para se tirar um avião do chão,
no Brasil, é mais do que absurda. O governo conseguiu
quebrar, até agora, todas as empresas aéreas
que se aventuraram no mercado. Quebrou a PanAir, a Real,
a Nacional, aTransbrasil, a Vasp e agora quebrou a Varig.
Será possível que todas elas foram mal administradas,
sem exceção?
Mas a TAM e a Gol não são exemplos de que
é possível voar no Brasil sem se endividar?
A TAM eu conheço bem e é uma empresa muito
bem administrada, os sucessores do comandante Rolim seguiram
sua linha de trabalho, são pessoas sérias.
Mas no futuro vão quebrar, também, se nada
mudar. O governo quebra todo mundo.
Outras empresas aéreas quebraram na crise que se
seguiu aos 11 de setembro, não?
O ataque terrorista às torres de Nova Iorque e
também ao Pentágono foi, sem dúvida,
o mais bem sucedido do mundo, do ponto de vista deles,
claro. Quebrou uma série de paradigmas econômicos.
E as companhias aéreas, que estavam reestruturadas,
acumularam balanços negativos. Mas as empresas
cortaram gastos, mudaram novamente, o governo adaptou
a regulamentação e agora estão se
recuperando muito bem. Aqui no Brasil, o governo não
fez absolutamente nada depois dos 11 de setembro a não
ser aumentar a tributação. Mas o período
atual é de crescimento constante e acentuado.
Então as perspectivas são boas?
As perspectivas, hoje, são excepcionais. O tráfego
aéreo mundial cresce a taxas de dois dígitos
ao ano. Em 2005 subiu 14% e chegou a 2,2 bilhões
de passageiros. Isso sem contar a aviação
civil, que soma a esses números mais, seguramente,
50%. Então tivemos pouco mais de 3 bilhões
de pessoas voando no ano passado, quase metade da população
do planeta (é claro que muita gente voou mais de
uma vez e outros não voaram nenhuma). A movimentação
financeira dessa indústria chega à casa
dos US$ 3 trilhões, mundialmente falando. E gera
29 milhões de empregos. Apenas em São Paulo
temos negócios que chegam a R$ 30 bilhões,
gerando 1 milhão de empregos diretos e indiretos.
É, portanto, uma indústria respeitável.
Isso tem sido aproveitado pelo mundo inteiro, menos por
nós, que estamos andando para trás. O Brasil
já perdeu US$ 10 bilhões com o fechamento
da Varig e vai perder muito mais.
Por quê?
Porque isso passa totalmente fora do sistema empresarial
brasileiro, que não vê a aviação
como um negócio.
E a questão da segurança do vôo?
O avião só perde em segurança, hoje,
para o elevador.
O que falta para que o Brasil também seja tenha
a mesma competitividade no mercado internacional conquistada
pela Embraer?
Nós precisamos de um projeto de nação.
Temos planos de governo, mas não temos plano de
nação, objetivos traçados pela nação
e que, não importa qual seja o ocupante do governo,
sejam perseguidos. A Embraer pode servir como exemplo.
Foi concebida no final da década de 40 e só
foi fundada em 1965. Seus objetivos foram perseguidos
o tempo todo e a empresa acabou vitoriosa. As propostas
executadas não são comuns no Brasil. Precisamos
de uma série de mudanças, que deve começar
- mas não se restringir a - pela reforma política.
Além disso, o poder está muito centralizado.
Fiz uma brincadeira com um grupo de juristas, faz algum
tempo, dizendo que ia entrar com uma ação
de inconstitucionalidade contra o governo. Eles riram
claro, mas depois ficaram pensando que o que falei não
é tão ilógico assim (risos).
E qual é o argumento?
O pacto federativo é uma ficção.
A Constituição de 1988, que não é
grande coisa, diz que o Brasil é uma República
Federativa. Mas a União absorve tudo, ocupa todos
os espaços, reúne poderes quase de realeza.
Somos então, na realidade, uma república
federal, subordinada a um poder central que vem de Brasília.
Esse poder é burocratizado, centralizador, feito
para não funcionar. E que oferece soluções
niveladas para todos os brasileiros, independentemente
de onde morem. É preciso lembrar que o cidadão
mora no município, no estado, e não na União.
Falta liderança no Brasil?
Eu nunca vi erigirem uma estátua para uma comissão.
O Brasil precisa de líderes, precisa de um estadista.
De uma pessoa que tome decisões, como Juscelino
Kubitschek tomava. Como Churchill tomava na Inglaterra.
Governar perguntando a opinião de todo mundo não
tem sentido e é uma forma lenta de fazer as coisas.
Porque sua opção, na juventude, pela carreira
militar?
O interesse por aviões existia desde criança,
claro. Mas não foi bem uma opção.
Nasci em Bauru, em uma filha muito humilde e em uma época
que a cidade nem faculdade tinha. A carreira militar foi
a opção que me permitiria estudar sem ter
que pagar por ele, caso contrário simplesmente
não estudaria. Formei-me, então, engenheiro
aeronáutico pelo ITA, como militar.
E depois presidiu algumas das maiores empresas do Brasil...
Presidi a Embraer de 1965 até 1986. Depois ocupei
a presidência da Petrobrás, de 1986 a 1990.
Fui, durante um ano, ministro da Infra-Estrutura. Voltei
à Embraer no período de transição,
em que ela estava para ser privatizada, e fui seu presidente.
Depois presidi a Varig, de 2000 a 2002 e agora me dedico
às meus negócios particulares, presido a
Universidade Santo Amaro e assumi esta semana a presidência
do Conselho Consultivo do World Trade Center de São
Paulo.
Este ano marca o centenário do primeiro vôo
de Santos Dumont, mas ainda persiste, internacionalmente
e especialmente nos Estados Unidos, a polêmica dos
irmãos Wright. Como o senhor, um aviador brasileiro,
vê a questão?
Essa polêmica só permanece lá na sede
do império, nos Estados Unidos. E, mesmo assim,
a discussão é apenas sobre o primeiro vôo,
se eles voaram antes do brasileiro. Tanto lá quanto
aqui, Santos Dumont é reconhecido como um precursor,
um revolucionário. O avião é o grande
monumento ao intelecto humano. A influência de Santos
Dumont é enorme, até hoje, no mundo todo.
Como ex-presidente da Petrobrás e ex-ministro da
Infra-Estrutura, como vê a decisão de exploração,
apenas agora, do gás da bacia de Santos, que foi
descoberta em 1987? Toda essa questão com o gás
boliviano não poderia ter sido evitada?
Digo apenas o seguinte: foi uma falta de visão,
parte de uma estratégia da Petrobrás. Mas
não quero falar sobre isso, seria chorar sobre
o leite derramado. Sou uma pessoa que olha para o futuro.
O importante é que agora vão explorar a
bacia e, em breve, teremos independência na fabricação
de gás.
Um fato curioso da sua biografia é sua participação
na construção de um carro de Fórmula
1. O senhor e a Embraer colaboraram com o piloto Émerson
Fittipaldi, na década de 70, na criação
do Fittipaldi-Coopersucar, o primeiro e único carro
de Fórmula 1 construído no Brasil. Como
foi essa experiência?
Pois é. Quando o Émerson Fittipaldi nos
procurou ele já era bicampeão mundial de
Fórmula 1 e tinha aquele sonho de produzir um carro
vencedor totalmente fabricado no Brasil. Ele queria projetar
a indústria automobilística brasileira no
cenário internacional. O Émerson me procurou,
pessoalmente, e assumimos o compromisso de desenvolver
e fabricar, com projeto de um engenheiro dele, o cockpit
e as asas do carro. Foi uma experiência interessante.
Fonte: AT Revista - Jornal A tribuna, de Santos/SP