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07 de Fevereiro de 2007
PALAVRA DE ESPECIALISTA


Fala o inovador Ozires Silva
O presidente da Pele Nova conta aqui a aventura de montar
uma empresa de base tecnológica que tem orgulho de ser brasileira

Entrevista a Mônica Teixeira

Piloto militar e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, Ozires Silva foi um dos criadores da Empresa Brasileira de Aeronáutica, a Embraer. Ele presidiu a então estatal por dezesseis anos, período em que foram lançados os famosos modelos Bandeirante e Tucano. Entre 2000 e 2002, esteve à frente da Varig. Também dirigiu a Petrobrás e foi ministro da Infra-Estrutura. Aos 73 anos, Ozires ocupa o cargo de vice-presidente da Academia Brasileira de Estudos Avançados e é o presidente da Pele Nova Biotecnologia S.A.(leia mais, em Empresa em Destaque) que, em junho, lançou no mercado seu primeiro produto, um curativo especial denominado Biocure, cuja fábrica piloto está instalada no Mato Grosso do Sul.


O senhor tem dito que a Pele Nova pode vir a ser empresa maior que a Embraer!
Um clínico que trata de diabéticos nos disse que a tecnologia básica do Biocure, nosso primeiro produto, é o sonho da medicina do século XXI. O que me encantou no projeto da Pele Nova foi o enorme significado da inovação. Não há estatísticas muito sólidas sobre feridas de difícil cura. Recentemente, foi criada uma Associação Européia de Feridas de Difícil Cura, que está em processo de coleta de dados, promoção de eventos. Diabéticos têm feridas de difícil cura, e são os pacientes do mundo mais organizados. Têm estatísticas, trocam informações. Por causa dessas feridas, milhões de pessoas perdem contato com a sociedade. A Organização Mundial da Saúde indica que de 18% a 20% da população mundial está constituída de diabéticos; e, infelizmente, em crescimento. Ora, estamos falando de 1,2 bilhão de pessoas. Desse 1,2 bilhão, pelo menos 2% ou 24 milhões de pessoas têm feridas de difícil cura. Só nos Estados Unidos, são dez milhões. O Departamento de Saúde norte-americano indica que essas pessoas gastam US$ 40 mil por ano em curativos. Então, estamos falando de US$ 400 bilhões. Aí disse o seguinte: se eu captar de 3% a 4% desse mercado - e posso captar - já sou maior que a Embraer.

Mas com o produto da Pele Nova, o gasto será menor do que esse de hoje...
É verdade. A vantagem é que nós nos tornaríamos um grande negócio, por causa da competitividade. É evidente que qualquer um pode contestar os números colocados dessa maneira. Mas como empreendimento para impelir uma inovação, vale. Nas condições americanas, com o Biocure, em vez de gastar 40 mil dólares, o diabético poderá ser curado com US$ 1 mil.

Como conquistar o mercado americano?
Nós chegamos lá de avião, é fácil para nosso produto. Estou considerando diferentes estratégias: uma delas é exportar, outra é criar uma empresa nos EUA, se for necessário fabricar lá.

Para entrar no mercado americano, curativo requer autorização do FDA (Food and Drug Administration, órgão que regula a comercialização de produtos médicos)?
Sim. Como há muito curativos, o FDA tomou a decisão de fiscalizar por amostragem. Eles analisam aleatoriamente um determinado curativo; os demais, liberam segundo certos requisitos: que sejam corretamente fabricados, estejam de acordo com as especificações, não causem danos, que a bula seja suficientemente instrutiva... Cumprindo esses requisitos não há problemas.

Para obter essa autorização, há custo para a empresa?
Não. A lei americana diz que o custo é do governo, porque ele é quem obriga a empresa a obter a permissão. Lógico: se a liberdade de empreender está na constituição, e governo se interpõe, o custo é dele. Os ensaios requeridos são pagos pelo governo. Isso aconteceu com o avião. Nunca pagamos. Pagamos aqui no Brasil, lá não.

Que papel teve a Academia Brasileira de Estudos Avançados na história da Pele Nova?
O objetivo social da academia é ser uma espécie de incubadora, é servir de ponte entre a inovação científica e tecnológica, os inventores, de um lado, e a indústria e o mercado, de outro. Muitos projetos vieram a nós. Um deles foi o do Biocure. Em geral, a Academia serve como catalisadora: pegamos um produto, descobrimos uma empresa e fazemos a aproximação da empresa que quer produzir do pesquisador que o criou. No caso do Biocure, o resultado econômico foi tão espetacular que decidimos empreender. Mas para criar a Pele Nova, a Academia não tinha recursos. Então precisamos capitalizá-la; fizemos road-shows para os investidores. Participei de todos eles.

Então o senhor realmente se dedicou!
Visitei todas as empresas da Associação Brasileira de Capital de Risco. Fizemos umas vinte apresentações. Duas empresas concordaram em participar. A Delta do Prata, do Rio de Janeiro, e a Decisão, de São Paulo, decidiram colocar capital de risco. Dois amigos meus toparam entrar. Com isso constituímos o capital necessário.

Qual o papel de Ubilar Oliveira?
Foi ele que teve a idéia de criar a Academia, e me contatou para fazer parte dela. É um negociante, dono de uma empresa em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, que faz a distribuição de cerveja. Ele é um dos investidores.

O senhor diz que o Biocure é o primeiro produto da Pele Nova. Quais serão os outros?
Estamos falando até aqui de uso externo, curativos. Nada impede que façamos produtos para uso interno. Aí o campo se abre enormemente. Para obter a aprovação de curativos na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) é muito mais fácil. Queríamos velocidade para lançar o empreendimento. Mas nada nos segura. Por exemplo: não dá para fazer safena com esse produto? Claro que dá. Outra coisa: será que recupera coração danificado pelo infarto? Pode ser. Por que, se criou um esôfago, não pode criar um rim, um pâncreas?

Quem faz pesquisa e desenvolvimento?
Os próprios criadores, a doutora Fátima Mrué, cirurgiã de Goiânia, e o professor Joaquim Coutinho Netto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Como se decidiu sobre a propriedade intelectual da tecnologia?
Os pesquisadores cederam o direito da propriedade intelectual para a Pele Nova. Nós demos a eles uma participação acionária e os estamos remunerando. Pretendo construir, na medida em que os recursos financeiros permitam, um centro de pesquisa que eles vão operar. No momento, o P&D está sendo feito no hospital da USP, em Ribeirão Preto.

Onde será a sede da fábrica?
A fábrica piloto está no Mato Grosso do Sul. Se partirmos para o critério de facilidades de infra-estrutura e dimensão de mercado, São Paulo é a escolha direta. Mas São Paulo é muito áspero no que se refere à tributação. E a tributação hoje está liquidando a indústria brasileira. Essa gritaria de empresários contra o nível de tributação não é absolutamente choradeira. É muito real. Em uma condição normal, a tributação da Pele Nova, sem contar os encargos sociais, é da ordem de 40%. É muito pesado, bem mais do que vamos remunerar os acionistas que correram o risco. Não se trata de o empresário não querer pagar imposto. É natural remunerar a infra-estrutura que recebe do país. Mas quando o governo leva metade do seu ganho sem colocar nada, e ainda exige cópia autenticada às centenas, enche de fiscalização, me aborrece de tudo quanto é jeito e ainda chega no fim e leva metade do que eu ganho, isso não está certo. A tributação média nos EUA é de 12%, na Europa, 16%; a nossa é 20%. Não dá!

Em que outros estados os senhores estão pensando?
Considerando que o custo de produção não deverá ser alto, um incentivo muito importante para nós será a redução do imposto de renda. Pela Constituição, todo o Norte e o Nordeste têm incentivo para o IR. Da Bahia para cima, pegando todos os Estados da Amazônia, qualquer estado serve. Como a matéria-prima é pouca - a película tem 0,4 mm de espessura, transportá-la não é problema. E como o produto final é muito leve, posso transportar de avião a um custo baixo e distribuir o produto no Brasil inteiro. Por isso, o problema fiscal é o decisivo. É claro que precisa de pesquisa e desenvolvimento, o que torna São Paulo ideal.

Quando a fábrica estiver instalada, quantos funcionários o senhor acha que vai ter?
Depende da produção. Nossa máquina, aperfeiçoada, vai produzir 50 mil curativos por dia. Vamos supor que nosso mercado seja da ordem de 250 mil a 500 mil curativos por dia - uma estimativa. Como o produto concorrente é muito caro, a gente pode supor que quase ninguém compra. Então, não se formou ainda mercado. Nessas circunstâncias, de 250 mil a 500 mil, estou falando de 5 a 10 máquinas. Hoje, em torno de uma máquina de produção, há 30 pessoas. Então, terá entre 300 e 500 pessoas.

A máquina é importada?
Não, é projeto nacional. Essa empresa é inteiramente propelida em real e em português.

As vendas estão indo bem?
Achei que seria um pouco menos difícil. Investimos muito em nossa estratégia básica. Estamos vendendo principalmente para hospitais; há cem deles estudando o produto.

E em relação ao mercado público?
Não temos nenhuma restrição, mas ele é bem mais complicado.

A política industrial para fármacos beneficia a Pele Nova?
Espero que sim.

Leia mais, em Empresa em Destaque

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