A CONSTRUÇÃO DE UM GRANDE JATO COMERCIAL
Ozires
Silva
Especial para Avião Revue
Agosto 2007
Nos momentos nos quais
o Brasil abre um debate sobre segurança do vôo,
logo após o acidente que atingiu o AIRBUS 320 da
TAM – Linhas Aéreas, ao final de uma etapa
Porto Alegre – S. Paulo, parece ser oportuno trazer
um pouco de dados sobre o que significa a concepção,
projeto, desenvolvimento, testes e ensaios de um novo avião
comercial. Muitas opiniões, conversas e trocas de
impressões impregnam as notícias, buscando
antecipar quais possivelmente seriam as causas do acidente
e as críticas têm variado entre as duas “culpas”
básicas, do avião (tecnicamente falando) ou
de fatores humanos envolvidos (manutenção
da aeronave e/ou sua operação a cargo dos
pilotos e dos órgãos de terra de proteção
ao vôo).
Como linha de argumento quanto a seriedade
do tema, pode-se tomar como exemplo o projeto do AIRBUS
A380, maior avião comercial da história aeronáutica
mundial, freqüentemente chamado de Super Jumbo, o qual
fez seu primeiro vôo experimental em 27 de Abril passado,
em Toulouse na França. Esse projeto, realmente fantástico
e corajoso, começou a ser concebido 10 anos atrás
pelo Consorcio Europeu da AIRBUS, tendo consumido para seu
desenvolvimento, construção dos primeiros
protótipos, testes, ensaios e investimentos para
sua produção em série a impressionante
quantia de 12 bilhões de euros (cerca de 37 bilhões
de reais). A nova máquina, resultado de anos de trabalho,
de concepção e de reflexão, trouxe
à vida um produto, cujo primeiro vôo ocorreu
em 27 de Abril de 2005. Sua certificação,
como avião de transporte de passageiros ou de cargas,
foi emitida pelo FAA (Federal Aviation Administration dos
Estados Unidos) e pela EASA (Agência Européia
de Segurança Aeronáutica) em Dezembro de 2006.
E o que vem a ser esta “certificação”?
Que significado tem para uma nova aeronave que deverá
voar, com segurança e eficiência, por dezenas
de anos, nas mais diferentes rotas, voadas e mantidas por
inúmeros técnicos e especialistas de praticamente
todos os países do mundo, acumulando um enorme período
de permanência no mercado, produzindo resultados e
custos verdadeiramente volumosos?
Estas perguntas têm razão de
ser nestes momentos difíceis pelos quais a Aviação
brasileira passa. Uma quantidade de pessoas, especialistas
ou não, tentam passar para a opinião pública,
e para os usuários, pontos de vistas pessoais, profissionais
ou não, criando confusão nas cabeças
daqueles que precisam do transporte aéreo para seus
negócios e que usam essa máquina realmente
diferenciada, cara, sofisticada e sem dúvida segura,
criada e mantida por décadas de trabalho sério
de engenheiros e de especialistas, os mais variados, resultando
num aparelho entre os mais impressionantes dentre os criados
pelo intelecto humano.
Nos trabalhos de certificação
para o A380, tomado como exemplo, foram utilizados sete
aviões, fabricados para serem usados nos extensos
ensaios em terra e em vôo, requeridos pelas autoridades
certificadora. As equipes envolvidas para executar tais
ensaios foram simplesmente as mais numerosas que se pode
identificar na história da indústria aeronáutica
mundial. Dentre uma multidão de especialistas foram
empregados direta ou indiretamente cerca de 800 pilotos.
Possivelmente, este tenha sido o maior dos esforços
num empreendimento aeronáutico que impressiona a
todos que com ele tenham tido contato. O realmente gigantesco
volume de trabalho e de esforço empenhado na criação
da nova aeronave caminha para que as primeiras entregas
para a operação comercial ocorram ainda até
o final de 2007. A primeira empresa que os usará
será a Singapore Airlines cujas equipes técnicas
já estão submetidas ao longo processo de treinamento
para conhecer o avião, tomar contato com os requisitos
de manutenção e de operação,
a fim de garantir resultados operacionais adequados ao operador
e sua capacidade de prover serviços seguros e eficientes
aos seus milhões de passageiros-usuários por
anos no futuro.
Para executar todo esse trabalho, e se certificar
dos resultados, as equipes técnicas se basearam em
normas e regulamentos redigidos ao longo de décadas,
desde o primeiro vôo pioneiro de Santos Dumont, em
Paris de 1906. Tais documentos oficiais foram elaborados
e são atualizados, com base na experiência
conseguida pelas operações, pelos resultados
das investigações de acidentes e pelas inúmeras
discussões em plenários e eventos internacionais,
cada vez mais numerosos. Essas disposições
técnicas, transformadas em requisitos, são
impostas aos projetistas e fabricantes pelas autoridades
aeronáuticas organizadas e constituídas em
cada país. Em sua maioria, estas instituições,
sempre subordinadas aos respectivos Governos, se baseiam
nos trabalhos de consolidação realizados pelo
FAA dos Estados Unidos ou pela EASA européia, as
quais são reconhecidas pela sua competência
e dedicação para se conseguir crescente confiabilidade
e segurança aos cada vez mais sofisticados e complexos
aviões fabricados.
Assim, todas as vezes que se vê ou
se ouve afirmações sobre erros, aqui ou acolá,
deve-se pensar que seria prudente manter uma atitude de
respeito pelo que se conseguiu até agora, ou seja,
a construção de um real monumento de competência,
constituído por um sistema realmente de sucesso,
caracterizado pela operação universal de milhares
de aviões, conduzindo pessoas e riquezas para todos
os quadrantes do planeta. Lembrar que os aviões modernos
são máquinas realmente seguras e eficientes
e, em que pesem o imenso trabalho criativo para fabricá-los
e os operar, devemos guardar a certeza de que os dirigentes
e colaboradores das empresas operadoras nacionais ou mundiais
são constituídas por pessoas sérias
e dedicadas, lamentando e sofrendo como qualquer um, quando
atingidos por qualquer infausta ocorrência que tanto
tortura famílias e amigos.
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