É SEGURO VOAR NO BRASIL?
Ozires
Silva
Especial para Gazeta Mercantil
30 Julho de 2007
Numa surpreendente ligação
internacional que, atendida, começou com uma pergunta
direta de um repórter de expressiva rede de TV
dos Estados Unidos:
“É
seguro voar no Brasil?”
É claro que uma quantidade
de pensamentos passou pela cabeça do interlocutor
brasileiro, imaginando qual a resposta que, em segundos,
deveria passar para a imprensa norte-americana, podendo
imaginar o dano que uma resposta mal dada poderia causar
a uma grande quantidade de pessoas e de negócios,
simplesmente respondeu: “Sim, é seguro voar
no Brasil”.
A pergunta inicial foi sucedida por outra,
sempre em tom de quem expressa uma dúvida: “Mesmo
se considerando dois pesados acidentes em menos de um ano,
levando mais de trezentos brasileiros perderem suas vidas?”,
perguntou o insistente repórter:
Qual a razão de tal preocupação?
O transporte aéreo claramente tem uma característica
internacional e o avião é um meio de transporte
que entra sobre o território soberano das nações,
somente sendo fiscalizado pelas autoridades, no aeroporto
mais próximo – e não nas fronteiras!
Isto empresta à atividade um natural um caráter
internacional diferente dos demais meios de transporte.
Já mais refeito, e tendo um pouco
mais de tempo para pensar, do nosso lado a resposta foi
formulada procurando mostrar que os acidentes tiveram características
diferentes. Se o primeiro que ocorreu com um avião
em vôo normal de linha aérea, no final de Setembro
de 2006, tinha como causa básica problemas com o
Controle de Tráfego Aéreo, o segundo, no último
17 de Julho de 2007, aconteceu no início da noite,
com visibilidade horizontal prejudicada pela chuva e com
um avião, completamente liberado e autorizado para
pouso pelo sistema de proteção ao vôo.
Muito se tem falado a respeito do CINDACTA
– Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle
de Tráfego Aéreo – no entanto, tem-se
que lembrar que o sistema, imaginado e criado pelo então
Ministério da Aeronáutica, a partir de 1967,
durante todas últimas décadas transcorridas,
prestou serviços excelentes ao país, pouco
ou nada comentado em razão dos bons resultados apresentados.
O serviço estruturado, construído e operado
pela Aeronáutica brasileira, sempre funcionou de
acordo com normas nacionais e internacionais, resultando
nas mundialmente aceitas certificações e referências
de segurança e eficácia no trato das operações
no espaço aéreo do país.
A pergunta, colocada de forma contundente
pelo repórter norte-americano, tem sentido e se conecta
com a necessidade de manutenção de altos padrões
operacionais de segurança, em estreito respeito às
posturas internacionais, determinadas por acordos multilaterais
nos quais os países comparecem como signatários.
As operações aéreas e as responsabilidades
civis envolvidas cobrem a aeronave, o operador, os passageiros,
terceiros e todos os outros atores que exerçam ações
e responsabilidades, diretas ou indiretas, na prestação
do serviço. Tudo isso, por convenções
globais, é regulado por inúmeros dispositivos
de proteção, inclusive pelas normas das fixadas
em apólices de seguro, entre outras.
Ora, no momento em que se questiona a qualidade
dos serviços prestados, sejam nos aeroportos ou nos
órgãos de proteção e de controle
do espaço aéreo, compreendido sobre o território
nacional, é natural que a comunidade internacional,
através de suas agências específicas,
conduza análises e discussões sobre a segurança
dos vôos de empresas registradas em diferentes países,
tendo como origem ou destino o Brasil.
Essa nossa integração com o
mundo foi conquistada a custa de expressivos investimentos
em materiais e em recursos humanos que, se desdobrando,
de forma consciente de suas responsabilidades, guindou nossa
aviação civil a padrões operacionais
equivalentes aos serviços que se presta em âmbito
internacional.
Neste momento, em que pese a dor causada
pela perda de tantas preciosas vidas, precisamos refletir
com muita serenidade e pragmatismo sobre o que devemos fazer
para que nada disto possa voltar a acontecer. Que dúvidas
sobre nossa capacidade gerencial não sejam geradas.
Que não se perca todo um bom trabalho executado ao
longo de tantos anos.
É fundamentalmente necessário
o empenho de todos para que as causas de tais acidentes,
esses ou outros, sejam apuradas, com a maior lisura, competência
e rapidez, visando esclarecer as razões e os fatores
contribuintes. Estes, entendidos e analisados, devem determinar
ações e providências visando garantir
que aperfeiçoamentos identificados sejam corrigidos.
Temos de afastar uma possível e explicável
preocupação generalizada que tem o poder potencial
de colocar um pesado ônus negativo ao país,
absolutamente evitável.
A aviação mundial presta um
imenso serviço a toda a população mundial.
A IATA – Associação Internacional do
Transporte Aéreo relata que em 2006 mais de dois
bilhões de passageiros foram transportados em todo
o mundo, sob índices de segurança indiscutivelmente
altos. A tendência de crescimento mundial do tráfego
aéreo será mantida e mesmo crescerá.
A contribuição do transporte aéreo
ao desenvolvimento econômico das nações
não pode ser minimizada. Assim, as reações
do país precisam ser rápidas e visíveis,
mesmo durante o compreensível calor das emoções.
Sobre tudo o que está ocorrendo é preciso
que a compreensão política seja racional e
competente, oferecendo aos técnicos bem formados,
dedicados e responsáveis pela segurança de
milhões de brasileiros impulsionadores do progresso,
o apoio moral e material para o trabalho meritório
que sempre executaram.
Isto se estende por todos os que trabalham
na operação dessa máquina, o avião,
certamente entre as mais complexas produzidas pelo homem.
Máquinas essas que, carregando todo um conhecimento
criado e desenvolvido nos últimos cem anos, honra
o intelecto humano pelo que realiza, cruzando com velocidades
impossíveis até há pouco tempo, transportando
com grande segurança seres humanos ou cargas, vitalizando
oportunidades, negócios e lazer.
Nada disso pode parar e temos a certeza
que, lamentando as tristezas e ausências que se precisa
suportar, o futuro das novas gerações esperam
que tenhamos a coragem e o descortino necessários
para enfrentar as correntes dificuldades. As autoridades
não podem falhar nesses objetivos e precisam agir
com rapidez para que outros e novos horizontes possam ser
oferecidos aos descendentes daqueles que agora pagaram com
suas vidas o preço alto do progresso. |