ATITUDES PARA CRESCER E SE DESENVOLVER
Ozires Silva
Especial para GAZETA MERCANTIL
24 Novembro 2007
Existem
hoje dois Brasis. Correção, talvez muitos
outros. Todavia, sem dúvida, existem pelo menos
dois, muito fortes, e em permanente conflito. Há
um, que todos conhecem. Aquele em que as liberdades públicas
se firmaram e onde, há mais de duas décadas,
foi restaurado o direito legítimo de escolha de
governantes, exatamente como ocorre nas democracias modernas.
Mas existe também, outro, onde a democracia é
quase uma ficção e muito acontece como se
vivêssemos nos idos do Império. Nele, as
conquistas democráticas quase que não têm
repercussão. O cidadão participa das campanhas
políticas e elege seus representantes, mas, terminado
o ritual cívico, volta a ser o súdito de
sempre. Os governantes, distantes, passam sempre a terem
razão, mantendo regras do passado e longe das aspirações
da população que poderia ter melhor qualidade
de vida, com menores contrastes e mais progresso. Longe
também do enorme progresso que o mundo atual, globalmente,
mostra.
No início do Século
XX, o grande pioneiro da aviação, Alberto
Santos Dumont, tornou-se não só um dos maiores
brasileiros, mas, sobretudo, um dos mais destacados realizadores
da época ao dar uma volta completa, pela primeira
vez em torno da Torre Eiffel em Paris, demonstrando a
viabilidade da dirigibilidade aérea. O criativo
conterrâneo logo seguiu em frente e, em 23 de Outubro
de 1903, novamente surpreendeu o mundo voando, pela primeira
vez com um aparelho mais pesado do que o ar. O Brasil
assim, por um seu filho competente e dedicado, mostrava
ser capaz de produzir tecnologias e conhecimentos e, mais
do que isso, mostrava que também os brasileiros
eram capazes de, por si próprios, tomar as rédeas
do destino em suas mãos.
Tudo isso acontecia no alvorecer da nossa República,
quando o progresso industrial e urbano emergia como um
símbolo de vontade de progredir e crescer. Entre
as chamadas “cousas da República”,
ganhava forma uma autêntica reforma cultural e educacional.
Procurava-se melhorar a qualidade dos professores para
competir com as universidades européias, incentivando
o ensino técnico e as escolas de engenharia, enfim,
recuperar o tempo perdido.
O Brasil avançou. Contudo,
não conseguiu despojar-se da herança colonial.
Ao contrário das conquistas de Santos Dumont, temos
nos distanciado do mundo moderno em múltiplas frentes,
em particular na educação, onde o desafio
tende a ser mais complexo e, também, mais ameaçador
dado ao seu potencial de propagar o atraso. Estampamos
claramente a nossa tradicional incapacidade de nos dedicar
firmemente para formar e estimular quadros de empreendedores
crescentemente qualificados, de brasileiros vencedores.
Como desdobramento, ampliou-se a exclusão. A crítica
realidade do quadro atual exige questionar o que aconteceu
com o Brasil. Embutido num sistema que insiste em não
ser reformado, de alto abaixo, com claras insuficiências,
longe de um sistema gerencial realizador. Dentro de excessos
de regulamentação falta quase tudo em particular
algo que privilegie as iniciativas e os programas de desenvolvimento,
em curso nos admirados países neo-emergentes.
Nos idos da década
de 60, falávamos em construir aviões! A
EMBRAER viria provar que não só pudemos
construí-los, mas conquistar ampla demanda do competitivo
mercado mundial. Foi um avanço, mas não
com fôlego suficiente para romper com o pecado original
que nos atrela ao conservador, ao ultrapassado que não
funcionou.
Será que não
encontraremos as atitudes para crescer? E o grande problema,
o mundo não está nos esperando e avança
com rapidez. Não são somente a Índia
e a China. A vontade para crescer afeta a todos, inclusive
alguns ainda insuspeitados. Vamos ouvir falar deles!
E a nossa grande nação
continente, com todas as possibilidades de participar
mais intensamente do mundo moderno e precisando dar respostas
ao bom povo brasileiro, ficará a espera de algo
que venha acontecer sem planejamentos e sem compromissos?
Sem entender que qualidade de vida melhor não somente
é possível, mas uma obrigação?