| POR
UM LUGAR DE DESTAQUE NO MUNDO
Osires Silva Especial para a Gazeta Mercantil 23 Out 2006
Em 1901 o grande pioneiro
da aviação, Alberto Santos Dumont, tornou-se
não só um dos maiores brasileiros, mas sobretudo
um dos destacados homens da humanidade, ao dar uma volta
completa em torno da Torre Eiffel, em Paris, com seu Balão
No. 6, demonstrando a possibilidade da dirigibilidade aérea.
Continuando seus esforços, cinco anos mais tarde
e há exatos cem anos, nosso genial patrício
decolava pela primeira vez em Bagatelle com seu 14-Bis,
mostrando que brasileiros são capazes de produzir
tecnologias e conhecimento, não apenas produtos como
café, algodão, fumo e cacau. Mais do que isso,
nosso país mostrava por seu ilustre filho ter iniciativas
e tomar nas mãos as rédeas de novo destino,
antecipando e lutando para fabricar um futuro diferente
e melhor.
Tudo isso acontecia porque
o carisma do nosso aeronauta, pequeno e franzino, mas determinado
e criativo, não se constituía num fato isolado.
Naquele momento de alvorecer da República, o progresso
industrial e urbano, emergia como um símbolo de vontade
de progredir, desenvolver-se. Entre as chamadas com orgulho
de “cousas da República”, ganhava forma
uma autêntica reforma cultural e educacional. Procurava-se
melhorar a qualidade dos professores para competir com as
universidades européias, procurava-se incentivar
o ensino técnico, incentivar as escolas de engenharia,
enfim, recuperar o tempo perdido.
O Brasil avançou.
Contudo, não conseguiu despojar-se da herança
colonial que se projetaria como sombra, como se olhos antigos
fossem brasas vivas a marcar a nação da mesma
forma com que marcava o lombo dos escravos. Nas últimas
quatro décadas tal fenômeno tem se revelado
mais intenso e dramático. Ao contrário dos
idos da conquista de Santos Dumont, não temos acompanhado
o mundo moderno em múltiplas frentes, mas é
na educação que o desafio tende a ser mais
complexo e , também, mais ameaçador dado ao
seu potencial de propagar o atraso. Isto porque nos falta
capacidade para formar especialistas em áreas estratégicas,
como as de ciência e tecnologia, além da notória
falta de incentivos às pesquisas e ao desenvolvimento.
Guardadas as distancias no tempo e na história, parece
que estamos condenados a repetir em pleno Século
21 a triste experiência de Portugal dos idos do Marques
de Pombal, quando o antigo reino colonial perdeu a corrida
tecnológica para os países europeus.
A diferença do drama
do século XVIII é que hoje somos uma nação
independente e não estamos convertidos a qualquer
tipo de dogmatismo, seja ele religioso ou étnico.
Pelo contrário, vivemos saudável ambiente
de pluralismo e ampla liberdade. Mas, na verdade, temos
nos limitado a viver o presente, sem despertar para o futuro
e pensar no que vai acontecer.
Como desdobramento, ampliou-se
a exclusão. Nunca, nem mesmo nas épocas dos
levantes, que abalaram o período da Regência
e o começo da República - marcados pelo doloroso
massacre de Canudos, a nossa história foi testemunha
de tamanho desequilíbrio social. As difíceis
condições dos ensinos básico e universitário
servem de metáfora para a extensão de tais
conflitos. A crítica do quadro atual exige questionar
o que aconteceu com o Estado brasileiro.
Teimamos em não reformar.
Olha-se em volta e é fácil constatar que falta
quase tudo: desde a definição de um modelo
de educação até a um projeto de desenvolvimento,
mesmo que primário. Falta criar condições
para que a escola pública ofereça ensino com
qualidade igual ao do setor privado e, assim, garantir oportunidades
iguais para todos nos exames de seleção.
No Império e até
a virada dos anos de 1960 , errou-se em profusão,
mas havia uma linha de coerência desenvolvimentista.
Agora, o centro de gravidade dessa trajetória rompeu-se.
Há muito discurso, pouca ação. Há
longas quatro décadas, por exemplo, discute-se a
reformas universitária. Nada acontece, como nada
acontece com a reforma tributária, a reforma financeira,
a reforma previdenciária, a reforma política
e a reforma do judiciário, enfim, as palavras estão
dissociadas dos atos. As autoridades estão mais preocupadas
com o jogo do poder do que com a concessão de liberdade
ao pensamento criativo da sociedade.
Resultado, perde-se tempo.
Pior, perde-se a identidade. Perde-se a noção
de que não estamos sozinhos no mundo e que, se não
avançarmos, teremos inevitavelmente recuado. Santos
Dumont e os construtores do Brasil republicano almejavam
exatamente o contrario. Progredir, desenvolver-se, ocupar
uma posição de destaque no mundo.
* Presidente da Mantenedora
da Unisa – Universidade de Santo Amaro. |