A EXPANSÃO DAS IDÉIAS
Ozires Silva
Especial para Gazeta Mercantil
22 Outubro 2007
É surpreendente
constatar que certos segmentos industriais, e mesmo nossa
população no Brasil, mostram pouca curiosidade
pelas oportunidades abertas nos nossos dias pela globalização
da economia e pela busca do novo consumidor mundial. Parece
que uma boa parcela do nosso sistema produtivo esteja
pouco consciente do valor das novidades e da incrível
capacidade de inovar que invade o mundo mais avançado.
Na mesma direção, muitos parecem não
constatar a conexão entre essa tendência
e a ascensão econômica estonteante, beneficiando
algumas das nações, em particular as sociedades
emergentes, entre outras. Apesar desse movimento crescente
por parte dos consumidores também é curioso
constatar que, em que pesem a crescente presença
das economias emergentes nos mercados mundiais, boa parte
das pesquisas, sejam em economia, negócios, política
social ou relações internacionais, ainda
se originam nas nações tradicionais do Ocidente.
A Ásia tem uma forte tradição presente
no pensamento mundial e certamente não tem nenhuma
escassez de capacidade mental ou individual nos seus centros
de estudos. No entanto, o resultado global da sua massa
de pensamento produz trabalhos prosaicos, que na maioria
das vezes não consegue chegar a termo com perguntas,
e muito menos respondê-las. Sem procurar ser injusto
poderíamos dizer que, nas nações
periféricas, há muitos centros de pensamento,
mas poucos são os estudos de qualidade, realmente
inovadores. Basta se constatar na grande maioria dos trabalhos
publicados o número de citações provindas
das nações tradicionalmente conhecidas como
desenvolvidas, com poucas contribuições
de outros.
Embora centros de excelência possam ser lembrados,
fora da Europa ou dos Estados Unidos, poucos são
aqueles que se empenham em coletar fatos, produzindo argumentos
ou filtros rigorosos, questionando políticas estabelecidas
e procurando mapear novas direções.
Por mais impressionante que seja o crescimento da China,
na atualidade ressaltado como algo diferente, sobretudo
por partir de uma nação multifacetada e
com uma fraca base nacional, chama a atenção
como uma grande execução, mas não
ressalta como mentalidade de desenvolvimento original.
Os produtos chineses, distribuídos intensamente
e ocupando posições no mercado mundial,
falham em mostrar algum tipo de tendência especial.
Satisfazem as demandas mercadológicas, mas dentro
dos estereótipos que todos do Ocidente conhecem
e reconhecem.
Idéias originais partem de civilizações
livres e onde a liberdade se impõe. Não
é acidente que elas tendam a fluir amplamente em
países como os EUA e em alguns outros da Europa,
com predominância da Grã-Bretanha e da Escandinávia,
que não só toleram como também estimulam
essas atividades como sendo socialmente benéficas.
Em outras regiões, dominadas sob o peso da autocracia
governamental, sob o jugo do poder político central,
os questionamentos à ordem estabelecida são
desaprovados - mesmo nos lugares em que os regimes não
os reprimem. A deferência instintiva à autoridade,
o paternalismo e a aversão a desacreditar outros
inibem a crítica e o confronto.
A América Latina, raramente citada no hemisfério
norte, acostumou-se a lidar com o mundo tal qual ele é,
e não tenta mudá-lo radicalmente: os bloqueios
encontrados são para serem aceitos, não
alterados por novas e revolucionarias idéias. Embora
seja uma regra que as empresas devam procurar transformar
obstáculos em oportunidades isto não é
visto com confiança ou como instrumento para aumentar
o dinamismo econômico da região. O peso da
opinião dos governos da região tem dificultado
e mesmo impedido o avanço da região na economia
mundial, salvo pequenas e isoladas exceções.
As forças de mercado têm cedido a essas culturas
de pressão oficial no lugar de tentar promover
a integração por meio do livre pensamento
ou da livre iniciativa.
O resultado é claro. Não se vê um
vigoroso espírito de inquirição necessário
para gerar a centelha da inovação que muitas
economias emergentes poderiam pretender ou estimular.
A disposição do latino-americano de contemporizar
com o poder político mantém a região
a reboque de idéias e pensamentos importados de
regiões tradicionalmente mais influentes, numa
possível posição confortável
que, no final, constrói um muro limitante do crescimento
e do progresso.
A conseqüente elaboração de políticas
também sofre. As leis e os regulamentos seguem
linhas tradicionais e se preocupam mais em prestações
de contas, no sentido da burocracia regular instalada
há anos, sem a menor brisa de mudanças ou
de inovações sensíveis. Problemas
iminentes podem passar despercebidos até ficar
tarde demais, enquanto as alternativas para cuidar deles
são ignoradas.
O Brasil e a América Latina necessitarão
de um mercado de idéias mais ativo se quiserem
reagir aos enormes desafios gerados pela incoercível
necessidade de desenvolvimento futuro. Cada vez mais,
esses desafios se estendem através das fronteiras,
em áreas tão distintas como educação,
saúde, infra-estrutura, transporte e meio-ambiente.
A carência de fóruns e instituições
comuns na região, nos quais se possa desenvolver
soluções combinadas, aumenta ainda mais
a necessidade de idéias engenhosas.
O maior obstáculo à satisfação
dessa reprimida demanda não é a insuficiência
de bons centros de estudos. É o contexto fraco
no qual permanecem que preocupa. Parece que estamos presos
a padrões que limitam críticas às
políticas, elaboradas nos balcões da burocracia
oficial, o que pela cultura local é facilitado
pela população em geral, acostumada ao conforto
de receber idéias fechadas e elaboradas pelas autoridades,
desconfiando de tudo que não tenha chancela oficial.
Em resumo, embora estejamos num mundo novo que se renova
com intensa rapidez, vemos ainda que idéias avançadas
são pouco comuns nas nações periféricas.
Parece ser importante insistir que pensamentos inovadores
devem ser preparados e discutidos, constituindo-se em
oportunidades, e as vozes críticas que advogam
mudanças construtivas precisam encontrar apoio
para abrir debates e serem ouvidas.