| HORA
DE LEVANTAR VÔO
Há pouco mais
de três décadas, mais exatamente nos primeiros
momentos dos anos 70, quando crescia segundo taxas superiores
a 8% ao ano e investia maciçamente em infra-estrutura,
o Brasil parecia destinado a tornar-se uma economia de classe
mundial, rompendo com a eterna condição de
Pais em desenvolvimento. Não apenas confirmava uma
tendência que se delineava desde os idos de 1950,
quando fez a sua revolução industrial, como
confirmava uma legítima aspiração cultivada,
sem dúvida, desde os primeiros momentos da construção
da República. A própria trajetória
da economia, que só conhecera até então
ciclos de crescimento, parecia confirmar tal perspectiva
como irreversível. Contudo, desde a década
de 80 o Brasil parece condenado ao atraso e nada indica
que esteja preparado para dar certo.
A crise dos controladores
de vôo, conseqüência da trágica
colisão aérea que resultou na perda de 154
vidas, é emblemática desta triste realidade.
Não é, porém, a única marca
decorrente de um modelo da administração pública
que parece ter sido montado peça por peça
para não dar certo. Olha-se em volta e percebe-se
claramente que a crise é sistêmica, não
setorial. Há graves e crescentes problemas por toda
parte. No horizonte emergem preocupações quanto
a geração de energia suficiente para rodar
a economia, faltam portos modernos para escoar a produção,
as estradas estão em péssima forma, com exceção
daquelas que foram privatizadas. Paralelamente, os conflitos
de terra se sucedem adensando um ambiente negativo para
o realmente bem-sucedido agronegócio. A formação
de capitais e a geração de créditos
para financiar o desenvolvimento aparecem com debilidade.
A educação superior está em crise.
Assim como o ensino médio, a pesquisa e o desenvolvimento
tecnológico. O quadro completa-se com os sucessivos
adiamentos das reformas macroestruturais, enquanto os juros
se mantêm altos, a burocracia e os impostos crescem
com velocidade.
Há muitas razões
para o Brasil ter perdido o brilho como economia de classe
mundial. Em ordem cronológica, a primeira delas está
relacionada com a falta de determinação para
reduzir, com vigor, já nos anos 80 a presença
do Estado nas áreas de serviço. Vejamos, por
exemplo, o que aconteceu com a telefonia que trilhou o caminho
inverso. Há dez anos, no país funcionavam
pouco mais de dois milhões de aparelhos. Além
disso, eram caríssimos, difíceis de obter
e a qualidade do serviço entre as mais precárias.
Hoje, são quase 130 milhões e o nosso mercado
figura entre os que mais crescem no planeta. Por que? Rompeu-se
o monopólio governamental. Todavia, as trincheiras
do nacionalismo exacerbado, em lugar de se enfraquecer,
parecem em processo de crescimentos. Resultado, não
completamos o ciclo de privatizações que caminhou
por áreas estratégicas como estradas e portos
em algumas regiões, mas não avança
no todo pois o Estado teima em intervir, inibindo os investimentos
privados.
Na década de 90, o
Brasil ensaiou uma abertura da economia, mas também
recuou. Incompleto, o modelo de integração
competitiva não avança, permanecendo estático
num incômodo meio termo. O quadro completa-se com
a crise da previdência e, o que é igualmente
preocupante com a ascensão dos índices de
violência, a morosidade da Justiça e os múltiplos
escândalos de corrupção. Como quem não
evolui, retrocede estamos lentamente nos distanciando do
vertiginoso crescimento mundial. Há conquistas, sem
dúvida. A inflação encontra-se sob
controle, o acesso à educação deu saltos
positivos, os programas de combate à pobreza vêm
sendo considerados vitoriosos. Mas, a contrapartida negativa
é que o país, embora com arrecadação
tributária nivelada aos países mais desenvolvidos
do mundo, o governo gasta além do possível
e não consegue encontrar o fio para sair do labirinto
da incapacidade de crescer.
Fica a pergunta: o que fazer?
O ponto de partida, é forçoso reconhecer,
mostra que o país está na rota errada e refazer
os caminhos do futuro torna-se uma necessidade visível.
Diagnósticos, não faltam. Sugestões
para mudanças, também. O que claramente falta
são ações. Falta, sim, deixar de lado
o caldeirão dos interesses políticos ou de
grupos e voltar-se para os anseios maiores da nação
brasileira. Não há tempo a perder. Hoje, mais
do que antes, precisamos estar à altura dos desafios.
Se olharmos para o retrovisor, vamos constatar que no passado
as condições eram mais adversas. Em outras
palavras, na década de 70 não havia liberdades
públicas. Hoje, existe. Na década de 70, predominava
o ufanismo, hoje impera o espírito crítico.
E, hoje, pode-se constatar que muito já se fez e
há muito mais por fazer.
Os controladores de
vôo, por força das reivindicações
trabalhistas, quase pararam os aeroportos brasileiros. Contudo,
é imperativo reconhecer que não é com
punições ou com a pura e simples contratação
de novos funcionários que se irá superar os
impasses. Até porque o drama é muito mais
amplo. O que precisamos levar em conta é que podemos
sair da armadilha que armamos para nós mesmos se
pensarmos, por exemplo, numa espécie de nova descoberta
do país que não mais seja ancorada num destino
triunfante como determinismo histórico, mas sim em
planejamento combinado com ações concretas
e eficazes, orientadas pela ética e o bem comum.
É assim que voltaremos a levantar vôo e poderemos
recuperar o tempo perdido. |