Tema

A VITÓRIA DA EDUCAÇÃO
Ozires Silva Especial para Gazeta Mercantil Janeiro de 2007

Entre as políticas públicas adotadas nos países vencedores, isto é, aqueles que desenvolveram culturas e produtos distribuídos por todo o mundo, mostram que todos os que adotaram ações necessárias para melhorar os índices educacionais de suas populações, conseguiram resultados realmente excepcionais. Segundo um exame internacional feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para avaliar o rendimento escolar em quarenta países, mostrou que a maioria dessas nações tem coletado resultados sensíveis, tanto no campo social como no material.

O Brasil, lamentavelmente, naquele mesmo estudo está relacionado nos últimos lugares entre as comparações realizadas. Segundo dados publicados pelo Ministério da Fazenda do Brasil, do total arrecadado em impostos pelo Governo Federal - no período de Janeiro de 2003 até Setembro de 2006, a União gastou em educação apenas 1,29%. Se tomarmos apenas um exemplo, o da Coréia, é constatado que os coreanos não apenas investem bem mais em educação do que o Brasil, como também continuam a fazer uso mais eficiente do dinheiro, conseguindo resultados excepcionais no seu desempenho econômico e social. Não é por acaso que os produtos coreanos estão cada vez mais presentes nos mercados internos do mundo e do nosso país, ostentando níveis de qualidade e de tecnologia realmente surpreendentes.

Ainda, dentro dos dados nacionais, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), mais de 90% dos estudantes brasileiros terminam o Ensino Fundamental abaixo do nível adequado, apresentando dificuldades para reter ou compreender textos básicos. O resultado constatado é que grande parte dos trabalhadores brasileiros carregam consigo não mais do que quatro anos de escolaridade, contra doze dos construtores de riquezas, como os coreanos e muitos outros países que vêm ostentando índices positivos de progresso e crescimento.

Na busca de exemplos, não há necessidade de ao outro lado do mundo para conseguir comparações válidas e demonstrativas. Aqui mesmo, no nosso país, temos muito a comemorar a partir de empreendimentos brasileiros que funcionaram, os quais tiveram como ponto de partida a educação, em qualidade e quantidade. Eles mostram vigorosas taxas de expansão e estão vencendo não somente no nosso mercado interno como saltaram com êxito para o comércio internacional, Por exemplo, quando se examina o que a EMBRAER conseguiu, muitos ainda se mostram surpresos. Todavia, se olharmos para trás – há cerca de sessenta anos, vamos encontrar um pequeno grupo de oficiais da Aeronáutica, visionários, simplesmente afirmando que o Brasil somente fabricaria aviões se antes produzissem engenheiros e técnicos. Em outras palavras, se começasse pela educação.

Foi o que fizeram. Conseguiram convencer o antigo Ministério da Aeronáutica a criar o ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica e, posteriormente, o CTA – agora denominado Comando Geral de Tecnologia Aeroespacial, em S. José dos Campos. Desde a materialização da idéia, em 1950, mais de 4.500 engenheiros foram formados, além de vários outros milhares de pós-graduados. Foi do esforço a partir da formação dos primeiros técnicos e engenheiros que começaram a florescer as empresas, bases reais da construção aeronáutica nacional de hoje.

Em novembro, dois livros foram publicados procurando contar a história de lutas daqueles que acreditaram no futuro, em meados da década dos 1940, focalizando a vida e obra do líder do grupo, o Brigadeiro Casimiro Montenegro Filho, um grande brasileiro do Ceará. Aquele time foi capaz de criar diferenças, mudando a realidade de um país ainda no estágio de subdesenvolvimento. Esses livros contaram como e por que a iniciativa da Força Aérea Brasileira de investir em educação, criando o ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica - deu certo e funciona ainda hoje. Uma real vitória da educação!

Nenhum milagre. Ou melhor, os resultados mostram um planejamento bem concebido e melhor executado. Na atualidade os números impressionam. Aviões brasileiros exportados voam nos mais diferentes sistemas de transporte aéreo em mais de 60 países. As vendas de 2006 superaram os R$ 10 bilhões. Milhares de empregos de alto nível foram criados. Uma nova geração de tipos e modelos de aviões capazes de transportar de 70 a 120 lugares foi projetada, desenvolvida e fabricada. Os novos produtos competem com competência e qualidade, mostrando um exuberante número de US$ 14 bilhões em encomendas firmes para unidades a serem entregues nos próximos anos para todo o mundo.

Tudo isto, neste único setor aeronáutico. O mesmo ocorre em outros campos das atividades industriais e de serviços nacionais, mostrando que o poder transformador da educação, desde o indivíduo até a mais sofisticada das organizações, está na base de tudo do que se consegue neste mundo do Século XXI, globalizado e internacionalmente competitivo.

Assim, fica difícil para o povo deste país, criativo e com uma inequívoca aspiração pelo progresso e desenvolvimento, compreender as razões que impedem investimentos em educação e treinamento e, após tantas constatações, sejam tão reduzidos. Não é fácil compreender que limitações, infelizmente hoje tradicionais, permaneçam segurando o potencial de realizações e de riquezas que podem emergir da cabeça e da criatividade dos brasileiros.

O Presidente Lula, no seu discurso de posse para o segundo mandato, anunciou um Programa de Aceleração do Crescimento. Boa notícia, mas foram mencionados somente os investimentos em infra-estrutura material, nada se colocando para o aperfeiçoamento humano dos brasileiros, estes os reais criadores de riqueza por força de seus esforços criativos. O que se espera é que esta área não seja esquecida. A cultura, a legislação e os regulamentos estabelecidos no passado mostraram até agora, resultados insuficientes. Um esforço conjunto entre os poderes públicos e os empreendimentos privados precisa ser implementado para modificar as ações nesse vital campo da Educação. É também difícil compreender quais os benefícios que a tributação sobre o setor educacional dos cidadãos pode trazer para a arrecadação pública de impostos e taxas. Urge um real esforço, e mesmo uma pressão da sociedade, para mudar e consagrar o grande diferencial que pode levar a nação a patamares significativamente diferentes daqueles do passado. É justo aspirar que os brasileiros sejam crescentemente vitoriosos nos desafios que o mundo global de hoje oferece a todos os qualificados para explorar as oportunidades de progresso e desenvolvimento.