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POR UM LUGAR DE DESTAQUE NO MUNDO
Ozires Silva

Em 1901, como registra Gilberto Freyre , em Ordem e Progresso, a Europa curvou-se, de verdade, ao Brasil. O pioneiro da aviação, Alberto Santos Dumont, tornou-se não só um dos maiores brasileiros, mas, sobretudo, um dos mais destacados realizadores da época ao dar uma volta completa, pela primeira vez em torno da Torre Eiffel em Paris, demonstrando a viabilidade da dirigibilidade aérea. O criativo e incansável conterrâneo logo seguiu em frente e, em 23 de Outubro de 1903, novamente surpreendeu o mundo voando, pela primeira vez com um aparelho mais pesado do que o ar. O Brasil assim, por um seu filho competente e dedicado, mostrava ser capaz de produzir tecnologia e conhecimentos e, mais do que isso, mostrava que também os brasileiros podiam, por si próprios, tomar as rédeas do destino em suas mãos.

Tudo isso acontecia porque o carisma do genial aeronauta, pequeno e franzino, mas determinado e criativo, não se constituía num fato isolado. Naquele momento do alvorecer da nossa República, o progresso industrial e urbano, emergia como um símbolo de vontade de progredir, desenvolver-se. Entre as chamadas com orgulho de “cousas da República”, ganhava forma uma autêntica reforma cultural e educacional. Procurava-se, por exemplo, melhorar a qualidade dos professores para competir com as universidades européias, procurava-se incentivar o ensino técnico e as escolas de engenharia, enfim, recuperar o tempo perdido.

O Brasil avançou. Contudo, não conseguiu despojar-se da herança colonial que se projetaria como sombra, parecendo que os olhos das antigas oligarquias atuaram como brasas vivas a marcar a nação da mesma forma com que marcava o lombo dos escravos. Nas últimas quatro décadas tal fenômeno tem se revelado mais intenso e dramático. Ao contrário dos idos da conquista de Santos Dumont, temos nos revelado incompatíveis com o mundo moderno em múltiplas frentes, mas é na educação que o desafio tende a ser mais complexo e, também, mais ameaçador dado ao seu potencial de propagar o atraso. Isto porque nos faltam escolas técnicas, capacidade para formar e interessar especialistas nas áreas estratégicas da ciência e tecnologia, o que aliado à notória burocracia constrói um quadro hostil às pesquisas e ao desenvolvimento de produtos que cheguem aos mercados consumidores. Estampamos claramente a nossa tradicional incapacidade de nos dedicar firmemente para formar e manter quadros de professores e técnicos crescentemente qualificados. Guardadas as distancias no tempo e na história, parece que estamos condenados a repetir em pleno século XXI a triste experiência de Portugal dos idos do Marques de Pombal quando o antigo reino colonial perdeu a corrida tecnológica para os países europeus.

A diferença do que pôde acontecer no passado XVIII é que hoje somos uma nação independente e não estamos convertidos a qualquer tipo de dogmatismo, seja ele religioso ou político. Pelo contrário, vivemos saudável ambiente de pluralismo e ampla liberdade. Mas, na verdade, temos nos limitado a viver o presente, sem despertar para o futuro e pensar no que vai acontecer.

Como desdobramento, ampliou-se a exclusão. Nunca, nem mesmo nas épocas dos levantes que abalaram o período da Regência e o começo da República, marcadas pelo doloroso massacre de Canudos, a nossa história foi testemunha de tamanho desequilíbrio social.

A crítica realidade do quadro atual exige questionar o que aconteceu com o Estado brasileiro. É no interior do sistema que teimamos em não reformar, de alto abaixo, que encontramos os germes das claras insuficiências do nosso sistema educacional. Olha-se em volta e é fácil constatar que dentro de excessos de regulamentação falta quase tudo em particular algo que privilegie a excelência, casada com uma oferta quantitativa que garanta oportunidades iguais para todos.

No Império e até a virada dos anos 60, errou-se em profusão, mas havia uma linha de coerência desenvolvimentista. Agora, o centro de gravidade dessa trajetória rompeu-se. Há muito discurso, pouca ação. Há longas quatro décadas, por exemplo, discute-se a reforma universitária. Nada acontece, como nada acontece com as reformas tributaria, financeira, previdenciária, política e a do judiciário, enfim, as palavras estão dissociadas dos atos.

Na realidade, perde-se tempo num mundo que se desenvolve velozmente. Pior, perde-se a identidade. Perde-se a noção de que não estamos sozinhos no mundo e que, se não avançarmos, estaremos inevitavelmente recuando. Santos Dumont e os construtores do Brasil republicano almejavam exatamente o contrario. Progredir, desenvolver-se, ocupar uma posição de destaque no mundo.

  • Presidente da Mantenedora da UNISA – Universidade de Santo Amaro.
  • Ex-Presidente da EMBRAER