UM
SISTEMA AEROPORTUÁRIO
Artigo para Julho de 2007
Especial para Avião Revue
Ozires Silva
Muitos analistas e mesmo usuários olham o congestionamento
dos aeroportos como uma crise e imaginam que isto somente
ocorre no Brasil ou na grande S. Paulo. Na realidade, o
mundo vive este problema como decorrência de uma causa
básica: o mundo está voando mais e utilizando
muito mais o avião, como modal preferido para o deslocamento
de pessoas e cargas, de forma rápida e segura.
Do mesmo modo, a crescente necessidade de eficiência
e eficácia nas atividades do Século XXI, coloca
em evidência e transforma em problemas os atropelos
nos aeroportos congestionados, ou a interminável
espera do próximo vôo ou mesmo o seu cancelamento.
Quando a competição mundial se intensifica,
que é o caso, a propalada crise aeroportuária
poderia ser também vista pelo ângulo da oportunidade.
No lugar de se colocar em discussão os gigantescos
números mostrados pelas estatísticas globais
– a IATA (Associação Internacional do
Transporte Aéreo) relata que, em 2006, 2,2 bilhões
de passageiros se deslocaram pelo ar – pensando-se
que tal concentração humana somente poderia
ser tratada nos aeroportos centrais. No entanto e claramente,
existe uma outra solução, ao alcance de nossas
mãos, que passa pelo uso de aeroportos secundários
ou periféricos, os quais se mostram em várias
regiões do planeta, inclusive em torno de S. Paulo,
espantosos baixos níveis de utilização
ou ociosidade marcante.
Com o expressivo crescimento das viagens de negócios,
turismo e lazer é preciso reconhecer que a demanda
está crescendo mais depressa do que os sistemas de
infra-estrutura podem acompanhar. Aviões estão
sendo comprados de fabricantes que estão com suas
linhas de produção congestionadas e trabalhando
ao longo de quantidades expressivas de horas-extras. Os
passageiros, precisando voar, nutrem suas expectativas para
a criação de novas ligações,
rotas e horários. Todavia, é fato constatado
que o número de cidades atendidas pelo transporte
aéreo regular das grandes transportadoras é
simplesmente ridículo. Por exemplo, no Brasil as
principais empresas atendem menos do que 50 cidades e a
aviação regional de transporte pouco mais
de 80, num país com mais de dois mil aeroportos ativos
e 5,5 mil municípios.
Nos Estados Unidos, país que mostra o maior quadro
de transporte pelo ar, o setor doméstico, embora
grande, cresce hoje em porcentuais menores do que o internacional,
sobretudo pela intensificação do uso de alternativas
modernas de comunicação, como Internet ou
Teleconferências. Do mesmo modo que por aqui muitos
dos aeroportos americanos estão na beira do colapso
e o futuro das obras de ampliação está
crescentemente ameaçado pelos problemas ambientais
e pelas resistências das populações
vizinhas.
Evidentemente, não são as operadoras dos
aeroportos ou as lojas instaladas nos complexos aeroportuários
que estariam reclamando dos congestionamentos atuais, observados
numa quantidade de aeroportos em todas as partes do mundo.
Quem carrega os prejuízos financeiros, e em imagem,
são as empresas de transporte que não conseguem
dar aos passageiros, seus clientes, a atenção
que com razão julgam merecer. Os prejuízos
financeiros também são óbvios e pesados
para carregar. Por exemplo, um BOEING 747 com seus quatro
motores rodando por um minuto de hora em espera, nos atrasos
típicos dos grandes centros de tráfego, reporta
o fabricante, pode custar à economia mundial mais
de um milhão de dólares por ano.
Além dos problemas causados pela insuficiência
de investimentos no controle do espaço aéreo,
desde mais de uma década – em que pese o empenho
e os esforços da Aeronáutica brasileira -,
aparecem com destaque as dificuldades legais, impostas nas
duas últimas décadas, à gestão
administrativa eficiente da prestação direta
de serviços pelo Poder Público, que notoriamente
aparece falhando, nos mais diferentes setores.
Indicadores apontam que um novo tipo de transporte aéreo
está surgindo no horizonte e que poderá ter
um impacto de diferenciação na tendência
atual de aumentar o tamanho e a capacidade de gerenciar
multidões de passageiros nos aeroportos atuais e
naqueles por construir. Um deles, parecendo uma tendência
para ficar, é o publicado recentemente pela Royal
Aeronautical Society, de Londres, informando que a capacidade
de produção das empresas de fabricação
de jatos de pequeno porte e de baixos preços, está
totalmente vendida para os próximos quatro anos.
Inclusive a EMBRAER do Brasil, para a sua nova linha de
jatos PHENOM 100 e 300, publica que já registra 440
pedidos firmes de compra para essas aeronaves de 6 a 9 lugares,
embora os primeiros vôos dos protótipos ainda
não tenham acontecido.
Assim, em conclusão, há problemas sérios
com os aeroportos tradicionais, mas basta se pensar um pouco
e imaginando as grandes vantagens do transporte aéreo
é muito possível que o cenário de uso
de uma multiplicidade de aviões menores, partindo
e chegando a aeroportos periféricos, torna-se algo
possível e real. O que se deve esperar é que
as autoridades, entendendo o problema, não mantenham
os atuais obstáculos legais e regulamentares para
a construção e operação privada
dessas áreas de operação que muito
podem contribuir para o alívio de uma crise que precisa
ser superada, para não reduzir a enorme contribuição
do avião para o desenvolvimento econômico da
nação.
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