Tema

É A PROSPERIDADE UM PROBLEMA?

Ozires Silva
Artigo para 09 Jul 2007
Especial para a GAZETA MERCANTIL

Na década de 1970, chegamos a viver um período que ficou conhecido como o “do Milagre Econômico”. Na época o PIB nacional superava os US$ 300 bilhões e as exportações US$ 12 bilhões. Do outro lado do mundo, a China, submetida a um férreo regime comunista, tinha seu PIB na faixa dos US$ 160 bilhões e as exportações que se arrastavam na metade dos resultados brasileiros. Hoje, menos de 30 anos depois e neste ano de 2007, a China poderá desbancar a Alemanha e assumir a terceira posição na economia mundial, atingindo um PIB de quase US$ 3 trilhões, registrando uma expansão de pouco mais de 10% sobre o conseguido em 2006.

Após décadas de estagnação econômica, a Índia – a partir de um amplo elenco de reformas instituídas desde 1991 -, embora ainda hoje enfrente um amplo espectro de problemas sociais, como pobreza, analfabetismo e desnutrição, entre outros, já apresenta um PIB de US$ 785 bilhões, com taxas de crescimento bastante robustas no mundo competitivo atual.

A Irlanda, hoje incluída na Comunidade Européia, por sua vez, mostra um robusto crescimento médio (nos últimos 15 anos) de quase de 10% ao ano e vem surpreendendo os melhores, com um desempenho excepcional quando comparado com as nações européias. Seu PIB em 2005 superava os US$ 200 bilhões, seguindo uma firme política de baixa taxação governamental e mostrando um perfil de progresso, considerado entre os maiores no Velho Continente.

O que há de comum nesses três países e nos demais que participam vigorosamente dos grandes, senão os mais destacados momentos econômicos da história mundial? Observadores mais argutos poderiam tentar responder a esta pergunta trazendo às discussões uma quantidade de dados e argumentos, mas, acredito que se poderia afirmar que, em nenhum deles, ocorreu um fenômeno bem brasileiro e que tem consistentemente povoado as cabeças dos nossos dirigentes governamentais, desde há décadas. Aqueles países, agora vitoriosos, não mostraram nenhum receio ou preocupação de enfrentar a prosperidade, o desenvolvimento e o crescimento. Jamais acreditaram que esses atributos seriam um problema. Ao contrário buscaram atingir novos patamares com determinação, pertinácia, insistência e, sobretudo, com políticas públicas abertas que estimularam os cidadãos a investir e a crescer com seus negócios.

Após a bem-sucedida implantação do Plano Real, sem dúvida emergindo como o de maior sucesso entre todos os Planos Econômicos praticados pelo Brasil em toda sua história, nossas equipes de dirigentes públicos, de várias administrações governamentais, optaram por uma política de taxas de juros extremamente elevadas, sob os argumentos que aquelas taxas inibiriam a expansão do consumo, ou seja, o crescimento. Em outras palavras, o país não poderia crescer. Os argumentos, infelizmente generalizadamente aceitos, explicaram, e ainda procuram explicar, que o crescimento da demanda interna pressiona aumentos de preços dos produtos, retornando-nos ao risco da volta às absurdas taxas de inflação do passado, contra as quais tanto lutou o país para se livrar.

Em outras palavras e sob uma real plêiade de declarações, ficou claro para cada brasileiro que a prosperidade deveria ser evitada, a fim de que fossem mantidas baixas taxas inflacionárias, sem dúvida, uma opção apoiada intensamente pela opinião pública e pelas expectativas gerais. O triste desse balanço é que ficamos para trás neste mundo de crescimento e de progresso.

Ainda recentemente em razão do conhecido “apagão aéreo” voltou-se a colocar que o aumento da demanda por vôos e por deslocamentos dos passageiros eram as causas do que estava acontecendo, causando tanta irritação aos usuários. Ora, no lugar de se examinar as razões da possível falha de um dos elos da corrente de prestação do serviço, dos pontos de vistas humano e material, preferiu-se novamente retornar à cultura do perigo do crescimento do tráfego aéreo, pois a demanda poderia estar em níveis exagerados!!!

O Brasil parece não ter se dado conta que o desenvolvimento não acontece por acaso, que medidas precisas e eficientes precisam ser acionadas. Que o comportamento e as culturas do passado não trouxeram para o povo brasileiro a qualidade e as condições de vida por todos aspiradas e, importante, claramente possíveis num país visto pelo mundo como fundamentalmente viável.

Os exemplos que nos vêm dos mais distantes recantos, de civilizações antigas que teriam todas as razões para um comportamento mais conservador, mostram que mudanças têm sido necessárias e aplicadas com coragem e descortino. Que a vontade política para mudar e transformar pode ser posta em prática e que quebras de paradigmas, dentro do processo da “destruição criativa”, descrito por Joseph Schumpeter - como as transformações que acompanham inovações radicais, realmente funciona!