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Há mais de
um século, desde que foi proclamada a República,
o Brasil busca o fio para sair do labirinto do atraso e
afirmar-se como um país desenvolvido. Não
foram poucas as vezes em que esteve próximo, muito
próximo, de encontrar o caminho. Na década
de 50, por exemplo, lançou os alicerces da industrialização
com a política de estabelecimento de uma sólida
indústria de base, dando origem à PETROBRAS
e à CSN – Companhia Siderúrgica Nacional
e outras. Criou uma classe média forte e politicamente
participante, além de uma classe operária
numerosa e atuante. Nos anos 70, ocupou espaços no
universo das exportações, promoveu um crescimento
do mercado interno e se incluiu entre as dez mais importantes
economias do planeta. Chegamos a viver momentos de intenso
entusiasmo e de confiança no futuro do país.
Contudo, temos de reconhecer
que nos anos recentes não temos dado certo. Enquanto
países como a China e a Índia dão saltos
sem paralelo na história das suas relações
com o Ocidente, batendo recorde sobre recorde no comércio
internacional, o Brasil tem colecionado mais dores do que
êxitos. Não é preciso ir muito longe
para comprovar. Basta lembrar que no último levantamento
do Fórum Econômico Mundial, pelo quinto ano
consecutivo, nos afastamos do topo da lista para recuar
preciosos nove pontos na competitividade global. O que isto
significa? Que a competitividade não faz parte do
temário cotidiano das nossas preocupações
e que, em que pesem os discursos das autoridades, o progresso
da nação (aquele inscrito na nossa bandeira)
não está na agenda nacional. Porque, se estivesse,
teríamos avançado em relação
aos nossos concorrentes, em lugar de perder terreno.
Numa visão de aparência,
as causas do fracasso parecem óbvias. Um sistema
tributário asfixiante, uma burocracia irracional,
um regime trabalhista ultrapassado, uma infra-estrutura
precária e juros exorbitantes. Soma-se um aparelho
judiciário excessivamente lento, um modelo previdenciário
falido e a ausência de uma política industrial
realista que se articule com um programa de desenvolvimento
coerente. Em síntese, perdemos o hábito do
desenvolvimento econômico, tão cultivado até
o alvorecer dos anos 80.
Esses múltiplos aspectos
do torniquete do atraso, porém, não revelam
o essencial: o apego ao passado que permeia o país,
da esquerda à direita, incluindo os liberais. Se
voltarmos aos anos anteriores à proclamação
da república, vamos encontrar um Imperador, Dom Pedro
II, vacilante, procurando, meticulosamente, pretextos para
adiar as reformas do sistema econômico e político,
deixando para trás a imperativa necessidade de criar
uma moeda sólida, promover a educação
e dar lastro para que os investidores tivessem segurança.
E, assim sendo, o desenvolvimento se afirmava mais pelas
aparências do que pela textura da realidade.
Não que o Imperador
fosse alheio à necessidade das reformas, mas sim
porque sua majestade tinha “vôo baixo”,
no dizer de Sérgio Buarque de Holanda. Em 1873, o
senador Cândido Mendes reclamava: “Somos um
país de pobretões para meia dúzia de
ricos”. Exatamente o que continuamos a ser, com a
diferença de que o drama da exclusão aumentou
em proporções geométricas e a nossa
capacidade de apresentar soluções marcha em
dimensões aritméticas. Falta definir que nação
desejamos ser, que lugar pretendemos ocupar no mundo, enfim,
sacudir a letargia do crescimento insuficiente.
As últimas eleições
mostraram mais do que um duelo entre candidatos, de colorações
e partidos diferentes. O povo lançou desafios sobre
o eterno duelo entre o Brasil que ambiciona a modernidade,
leia-se o progresso e a inclusão social, e o Brasil
prisioneiro a atavismos como o desemprego em massa, a educação
deficiente e excludente, a degradação ética
e, em especial, o medo de mudar. Seja qual for o desfecho,
o desafio do futuro presidente será aquele de ampliar
fronteiras de realização. Não mais
falar de esperança, mas de promover as ações.
Se assim procedermos é que poderemos encontrar o
caminho do êxito e deixar para trás a sedução
do fracasso. Ou seja, construir um país verdadeiramente
democrático e não mais a democracia de aparências
que tem sido uma constante desde os idos do império.
Vivemos a hora da verdade. Maturidade para encará-la
é o que postula sociedade. |