EDUCAÇÃO, GENIALIDADE
E INOVAÇÃO
Ozires Silva
Gazeta Mercantil
Artigo para 03 Dez 2007
Em 1876, Nikolas August Otto,
alemão de nascimento, conseguiu fazer funcionar
e demonstrar pela primeira vez a idéia de usar
ciclos de combustão interna para a produção
de energia. Usando uma mistura bem dosada de combustível
e ar, produzindo explosões em câmaras fechadas,
conseguiu provocar deslocamentos que, acoplados a um eixo
manivela, produziu potência. Estava inventado um
dispositivo que revolucionou a propulsão mecânica
em praticamente todos os veículos de hoje, o motor
a explosão.
No final dos anos 90, Alberto
Santos Dumont, nosso conterrâneo brasileiro, viu
esse motor numa exposição em Paris e imaginou
que aquela pequena máquina, relativamente leve,
poderia ser instalada em balões. Imaginou que uma
hélice instalada no eixo poderia propelir no ar
uma máquina aérea. Em 19 de Outubro de 1901,
pela primeira vez no mundo, caminhando por essa idéia,
pôde ganhar o Prêmio Deutsch em Paris, decolando
com seu Dirigível VI, de Saint Cloud, circulando
a Torre Eiffel e retornando ao ponto de partida num tempo
inferior a 30 minutos. Estava inventada a dirigibilidade
aérea.
Albert Sabin, russo de nascimento
e vivendo nos Estados Unidos, em 1955 e trabalhando com
Jonas Salk, descobriu que usando vírus inativados
ou mortos poderia produzir uma vacina capaz de prevenir
ou amenizar a poliomielite, que ameaçava se transformar
numa peste mundial. Cinco anos mais de trabalho, Sabin
criou sua vacina, usando vírus vivos atenuados,
praticamente eliminando a ameaça da doença.
No final dos anos 30, os ingleses
tinham descoberto a utilidade do radar. Usaram o princípio
físico do eco que, extrapolado do som, pôde
encontrar uso no reflexo das ondas magnéticas emitidas
no espaço. Todavia, para fazer a alma do equipamento,
o magnetron, em escala industrial tiveram ajuda de Percy
Lebaron Spencer, americano e projetista de válvulas
de rádio, da Raytheon dos Estados Unidos. Terminada
a Segunda Guerra Mundial, Spencer, observou acidentalmente
que uma barra de chocolate submetida aos raios eletro-magnéticos
derretia rapidamente. Movido por um impulso pensou que
algo estaria gerando calor. Logo em seguida descobriu
que a freqüência de emissão do magnetron
entrava em ressonância com a molécula da
água. Mais ou menos como uma criança num
balanço, cuja amplitude do deslocamento pode ser
aumentada a cada empurrão. Estava sendo inventado
o forno de micro-ondas, hoje uma utilidade que se encontra
em todas as cozinhas do mundo.
Em meados dos anos 60, um
grupo de engenheiros do Instituto Tecnológico,
de São José dos Campos e no CTA, imaginou
que aviões menores e mais robustos poderiam ocupar
o espaço deixado para trás pelas novas aeronaves,
cada vez maiores. Criaram um avião, o BANDEIRANTE,
que se tornou uma prova do conceito. Hoje a indústria
aeronáutica brasileira, com base de concepção
e tecnologias locais, exporta para todo o mundo, tornando
o Brasil um dos importantes países que fabricam
aviões comerciais.
No começo dos anos
90, Joaquim Coutinho Neto e Fátima Mrue, brasileiros
de S. Paulo e de Goiás, buscavam selecionar um
tipo de matéria-prima para fazer próteses
artificiais que pudessem substituir esôfagos humanos
naturais, removendo ameaças e doenças do
aparelho digestivo. Tentaram o látex, seiva das
seringueiras, quando por acidente, descobriram que era
possível intensificar a vascularização
sanguínea nas áreas aonde o produto era
aplicado, abrindo espaço para as regenerações
celulares ou teciduais. Anos de trabalho permitiram a
identificação do princípio ativo,
extraído do látex, responsável por
essa ação fisiológica. Os estudos
e pesquisas ainda prosseguem, contudo os horizontes criados
por essa descoberta mostram um futuro realmente impressionante
para a melhoria da saúde humana.
Valem perguntas! O que move
estes homens, mulheres – simples pessoas, pesquisadores
e inventores - que, estimulados pela busca do desconhecido,
tornem-se capazes de criar, produzir novos conhecimentos
e chegar a descobertas que mudam nossas vidas?
Estamos em pleno Século
do Conhecimento. Novidades e inovações alternativas
“aparecem” em todos os momentos. Elas são
criadas por pessoas inquietas, capazes e observadoras,
gerando resultados imensos e capazes de influenciar toda
uma região, país ou mesmo o mundo.
O importante é que
essas pessoas precisam existir e ter sucesso nos seus
trabalhos. Para que elas existam e se projetem parece
que, pelo menos, dois requisitos básicos sejam
necessários: uma sólida e competente base
educacional além de ambientes econômicos
favoráveis, constituídos de centros de pesquisas
e de conhecimento, desenvolvidos e equipados, criando
possibilidades para que os produtos de laboratório
possam chegar ao consumo da população mundial.
Hoje, quando se identifica
os surtos de desenvolvimento de regiões e de países,
vemos que o denominador é sempre o mesmo. Sociedades
abertas, livres para pensar e para construir, apoiadas
por mecanismos que possam gerar recursos financeiros e
capitais de risco, buscando perscrutar o futuro. E, com
base em conhecimentos crescentes, abrir perspectivas para
a melhoria da vida de imensos contingentes humanos, infelizmente
ainda em grande quantidade, vivendo abaixo da linha de
pobreza.