O “APAGÃO”
AÉREO
Ozires Silva Junho de 2007
Os problemas recentes apresentados
pelo sistema brasileiro de transporte aéreo trouxeram
a tona uma quantidade de análises e de opiniões
dos mais variados periódicos e revistas especializadas
locais, levando para o público usuário notícias
que, em grande medida, preocuparam os viajantes aéreos,
em particular, os chamados “passageiros freqüentes”.
Muitos debates foram realizados. Claramente mostraram que
o monopólio estatal instituído para a prestação
do serviço deu mostras de fadiga. Da mesma forma
que outros setores da economia, anteriormente sob o comando,
a regulamentação, a fiscalização
e a prestação dos serviços por parte
do Estado brasileiro, explicitou insuficiências mais
ou menos percebidos pelos usuários ou público
em geral.
O que agora está sendo
percebido no Brasil não é diferente do que
ocorre em várias outras regiões do mundo.
Vejamos, sob um acentuado resumo, o exemplo dos Estados
Unidos, país que isoladamente responde por cerca
de 40% do tráfego aéreo mundial, tendo transportado
em 2006 perto de 750 milhões de passageiros (cerca
de 3 vezes sua população) nos seus movimentos
doméstico e internacional, em perto de 850 mil vôos.
Isto foi computado somente, no transporte regular de passageiros
em empresas de linhas aéreas nacionais e estrangeiras.
Se for adicionado os movimentos produzidos pela Aviação
Geral (vôos corporativos, negócios, lazer,
instrução de vôo, etc) esse número
fantástico, simplesmente dobra.
Naquele país, em 2006,
registrou-se um expressivo recorde de atrasos e cancelamentos,
devido a restrições de espaço, tanto
em vôo como em terra. Aerovias, conexões e
aeroportos congestionados foram regras que os americanos
do norte tiveram de suportar. A situação,
vista por especialistas, parece mostrar que o quadro não
deve melhorar em prazo curto, quando em 2015, os passageiros
transportados pelas empresas estabelecidas projeta o expressivo
número de um bilhão por ano ou dois bilhões
em 2025! Em resumo, não estamos sozinhos!
As autoridades americanas,
debruçadas sobre o problema, fixam seus objetivos
nos investimentos necessários e na transformação
do corrente sistema “humano-cêntrico”
para bases de satélites, acopladas a mecanismos bastante
diferentes das tecnologias hoje em corrente uso, prometendo
um tratamento seguro e eficiente dos expressivamente maiores
movimentos aéreos projetados. Tudo isto está
sendo orientado para também acomodar a Aviação
Geral, cujas taxas de crescimento, com as operações
dos novos VLJ (jatos leves) e dos UAV (aviões não
tripulados), além de alternativas ou opções
de utilização do espaço aéreo
a acontecer nas próximas décadas.
O Congresso americano, em
2003, criou um JPDO (Projeto de Planejamento e Desenvolvimento
Conjunto), para trabalhar paralelamente com o Executivo
Federal – como parte do Programa VISÃO 100
- a fim de produzir as alternativas legais e financeiras
para, junto às comunidades governamentais e privadas,
chegar ao que foi chamado NGATS (Próxima Geração
do Sistema de Controle de Tráfego Aéreo),
a ser implementado progressivamente até 2025. Esse
trabalho, conhecido atualmente como NextGen, prevê
um novo desenho para o sistema nacional de tráfego
aéreo que projeta bases de satélites artificiais,
usando transponders automáticos, conectado a ampla
supervisão do tráfego e conexões, trabalhando
com novas tecnologias de comunicação terra-avião,
além de informações meteorológicas
“on time”.
Aqui no Brasil, após
um longo e pouco útil debate político, foi
decidida a criação de uma CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito) que, pelo menos até
agora busca culpados para o acidente GOL-LEGACY, ocorrido
em Outubro de 2006. Parece que as discussões estão
se situando longe das visões de longo prazo que clamam
soluções estruturais para atender o crescente
uso de aviões para transportar pessoas e cargas,
gerando negócios, oportunidades e desenvolvimento
econômico.
Um importante conceito, desenvolvido
pela aviação mundial – e possivelmente
o real responsável pelo espetacular resultado dos
atuais expressivos níveis de segurança que
a operação aérea conseguiu estabelecer
– rejeita a cultura de “busca de culpados”
e procura se centrar mais para determinar o “por que”
aconteceu e reage na direção de corrigir as
razões que levaram ao acidente. O objetivo é
que tais ocorrências não mais se repitam! Com
o indiciamento ou condenação de possíveis
“culpados” nada se consegue em termos de solução
dos imensos problemas que se precisa enfrentar e corrigir.
Enquanto por aqui se debatem
os velhos e surrados conceitos, de muito ultrapassados pela
comunidade aeronáutica internacional, nas áreas
mais desenvolvidas do globo, as correntes de opinião
buscam as soluções, com as quais todos concordam,
mas debatem os custos dos programas que forem aprovados,
a previsão dos recursos necessários e o suprimento
de fundos para que em tempo as coisas aconteçam,
em prazo fixado, sem prejuízo das atividades econômicas
que afetam e afetarão.
Todos esperam que novos pensamentos
e orientações possam também influenciar
nosso sistema político, lembrando que o Brasil, como
um dos maiores países geograficamente falando -,
não pode prescindir dos mágicos resultados
de uma Aviação Civil moderna, eficiente e
segura. |