O Reino do Brasil - Mudar de
atitude para crescer
Ozires Silva Especial para a Gazeta Mercantil Fevereiro
de 2007
Existem hoje dois Brasis.Correção,
talvez existam muitos. Mas, sem dúvida, existem dois
pólos muitos fortes, em permanente conflito. Há
um Brasil que todos conhecem que é aquele em que
as liberdades públicas se afirmam e onde, há
mais de duas décadas, foi restaurado o direito legítimo
de escolha de governantes em todos os níveis, do
Presidente da República aos Prefeitos e Vereadores,
exatamente como ocorre nas democracias modernas. É
o pólo mais visível. Mas existe também
um país paralelo, pouco visualizado, onde a democracia
é quase uma ficção e muita coisa acontece
como se vivêssemos nos idos do Império. Nele,
as conquistas democráticas quase que não têm
repercussão. O cidadão participa das campanhas
políticas, vai às urnas vota e elege representantes,
mas, terminado o ritual cívico, volta a ser o súdito
de sempre. Os governantes passam sempre a terem razão.
Entre os muitos indícios
de tal realidade, podem-se citar, entre outras diretivas
de poder absoluto, as Medidas Provisórias, as chamadas
MP’s, que consomem oito em cada dez horas de trabalho
do Congresso. Em 1988, por ocasião da Constituinte,
houve forte pressão para que se colocasse um ponto
final na banalização do uso dos Decretos-Leis
pelo Governo. Agora, as MP’s, que a exemplo dos antigos
Decretos-Leis só deveriam ser utilizados em situações
excepcionais, viraram rotina. Portanto, não deveria
ser difícil, para nós brasileiros, imaginar
que, na vizinha Venezuela, o Presidente Hugo Chavez vai,
por 18 meses, poder governar à base de decretos.
Ora, não estamos, fazendo praticamente o mesmo, só
que de forma menos explicita? E há tempos, duas décadas,
para ser mais preciso!
O drama das MP’s é
que concedem poderes imperiais ao Estado. O drama da sociedade,
por sua vez, é que não está suficientemente
organizada para fazer o contra-ponto ao poder estatal. O
resultado é que não há previsibilidade.
As MP’s, entrando em vigor no dia seguinte à
assinatura do Presidente, levam os empreendimentos a serem
sacudidos permanentemente por novas regras e procedimentos
que quebram processos de investimento e retardam novas iniciativas.
Em ‘Os Donos do Poder’,
Raymundo Faoro, fala dos dois bandeirantismos que estão
na raiz da formação da nação
brasileira. Um, oficial, oriundo de política geral
de Estado, aplicado a objetivos americanos, mas com raízes
no gênero de vida tradicional dos portugueses. O segundo,
materializado nas Bandeiras Paulistas, por definição
e natureza, livre, simbolizando um novo gênero de
vida e de ocupação territorial. Deixando de
lado os erros que coexistem nos dois modelos, a vertente
oficial sempre inibiu a vertente privada e, não seria
um exagero dizer, ajustou a sociedade civil ao seu modo
de ser. Dele nasceram tanto os caudilhos como os coronéis,
assim como a arrogância do servidor do Estado e a
ilusão dos governantes de serem os únicos
detentores da verdade.
Se no passado os Bandeirantes
se comportavam como auxiliares do Rei e, por ele, eram tolerados
quando cometiam arranhões à autoridade ou
tinham a submissão comprada por concessões
e honrarias, agora a situação é, talvez,
ainda mais complexa. Isto porque o Estado privatizou empresas
e serviços estratégicos, recuou da posição
de empreendedor. Na prática, contudo, reina soberano.
Sua autoridade não tem cunho apenas regulador ou
fiscalizador. É burocrática, centralizadora
e senhorial. Não se questiona, nem se deixa questionar.
Nos idos da década
de 60, quando falávamos em construir aviões,
lembro-me de uma frase autoritária: avião
não se produz num país como o Brasil, avião
se compra no exterior. A EMBRAER viria provar que não
só podemos construir aviões, como podemos
conquistar mercados mundiais. Foi um avanço, mas
não com fôlego suficiente para romper com o
pecado original do Reino do Brasil que se fundiu com o Brasil
republicano e continua dando as cartas. Recentemente, a
imprensa européia estampou em manchetes que o futuro
brasileiro está na agricultura. E a indústria
de ponta? Quantas toneladas de soja precisam ser vendidas
para que se compre um computador moderno? Não é
por acaso que os Estados Unidos, que tem uma agricultura
forte, seja também a maior nação industrial
do planeta. E, registre-se, foi fundado quase na mesma época
que o Brasil, não sendo muito mais extenso ou rico
que nós. A diferença está na atitude.
Como modelo de democracia,
lê-se na constituição americana, datada
de 1787: todo poder emana do povo. Na nossa última,
duzentos anos mais tarde, está escrito a mesma coisa,
mas com as ressalvas de que o poder é exercido por
meios dos representantes eleitos e nos termos da Constituição.
Na essência, é uma questão de postura.
Os governantes precisam mudar de atitude para assegurar
o crescimento, criando horizontes estáveis e livres
de sobressaltos. Deve ser lembrado que a riqueza vem dos
empreendimentos e dos empreendedores e não dos Governos. |